Artigos
Lições para ser o cronista do rei: um estudo dos Diálogos sobre quem deve ser o cronista do príncipe, de Pedro de Navarra
Tradução e apresentação de Maria Emília Granduque José (Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Franca/SP - Brasil). NAVARRA, Pedro de. Dialogo qual debe ser el chronista del principe. Materia de pocos aún tocada. Dirigidos al catolico Rey de España Don Phelipe de Austria segundo deste nombre. Toulouse: Casa de Jacobo Colomerio, impresor de la universidad, 1567. No século XVI, a Espanha foi palco de uma série de escritos que visavam definir não apenas as regras que deveriam conduzir a escrita da história, mas também as qualidades esperadas de um bom cronista. Justificavam os autores dessas obras que a imagem de um reino e, consequentemente, de seu governante, construía-se a partir da história elaborada pelos letrados encarregados de registrar o passado. A partir do estudo dos Dialogos qual debe ser el chronista del principe, composto por Pedro de Navarra e publicado em 1565, a proposta desta apresentação crítica é interrogar como os letrados definiram o ofício do cronista e historiador na sociedade espanhola dessa época. Além dessa questão central, o texto tem como alvo apresentar a tradução comentada dos Dialogos qual debe ser el chronista del principe com o objetivo de guiar a análise sobre as funções atribuídas ao cronista do rei, bem como os requisitos necessários para o exercício desse ofício.
Reinventing the concept of homo novus in Rome: Cicero as Horace's role model
This paper identifies similarities between Horace’s and Cicero’s use of the term Homo novus as a positive connotation, which contrasts with the then prevailing view of the outsider as a negative element. We suggest that Horace might have drawn on elements from Cicero’s works to support the defense of his position within Roman society.
Os amigos do bem comum: o engajamento político dos “repúblicos” no Portugal do século XVII
O presente artigo pretende lançar luz sobre o insuspeito republicanismo que floresceu no Portugal do século XVII. Muito antes do advento do republicanismo liberal, o reino português alimentou uma longeva tradição de liberdade e devoção ao bem comum, singularmente ilustrada pelo engajamento político dos autoproclamados “repúblicos”. Alegando encarnar um modelo ideal de virtude cívica, eles se apresentavam como os amigos do bem comum e assumiam a tarefa de condenar os vícios da república, o que faziam através da publicação de livros de crítica política. Seu esforço para comunicarem-se com seus compatriotas anuncia um novo tipo de participação política, que não mais se realiza nos palácios silenciosos da nobreza ou no espaço restrito da corte real, mas na esfera pública emergente.
Dorothy Porter e a constituição de um campo bibliográfico sobre o negro no Brasil e nos Estados Unidos (1943-1978)
O presente artigo realiza uma análise histórica dos intercâmbios intelectuais, culturais e políticos entre bibliógrafos brasileiros e norte-americanos através do processo de produção da Afro-Braziliana, bibliografia sobre o negro no Brasil compilada pela bibliotecária afro-americana Dorothy Porter entre 1943 e 1978, ano de sua publicação. Por meio de uma história sociocultural da prática bibliográfica, examinamos a formação da obra relativamente aos tensionamentos teóricos, às lutas narrativas, aos dissensos interpretativos e às leituras contrastantes que o trabalho de Porter provocou, tanto em sua constituição quanto em sua recepção. A hipótese principal é a de que as problemáticas engendradas pela Afro-Braziliana reposicionaram politicamente diferentes entendimentos e disputas narrativas de padrões de categorização social dos sistemas raciais atribuídos ao Brasil e aos Estados Unidos.
O fim das fraternidades raciais latino-americanas no imaginário afro-americano: a viagem de George Schuyler pela América Latina (1948)
O objetivo deste artigo é o de analisar o relato de viagem do intelectual afro-americano George Schuyler pela América Latina em 1948. A sua intenção era a de retratar a presença e as experiências dos negros nas forças armadas dos países latino-americanos, comparando-as com a situação dos negros nas forças armadas estadunidenses. Naquele mesmo ano, o presidente Harry Truman havia assinado uma ordem executiva para iniciar o processo de desagregação das forças armadas, tentando assegurar o voto dos negros em uma eleição disputada com outros dois candidatos. O jornal Pittsburgh Courier, no qual atuava George Schuyler, interessado em promover o debate sobre a inclusão de negros nas forças armadas, financiou a sua viagem pela América Latina. Schuyler acreditava na ideia, compartilhada entre várias lideranças negras, de que as sociedades latino-americanas, apesar da pobreza material, eram muito mais inclusivas que a estadunidense, possibilitando a mobilidade social das populações negras pelo continente, principalmente no Brasil. Entretanto, ao testemunhar a realidade dos negros latino-americanos, o intelectual fez um retrato distinto das representações difundidas entre os afro-americanos, apontando para a coexistência entre miscigenação e preconceito racial, um fenômeno considerado contraditório para estudiosos das relações raciais naquele momento.
“Uma reunião de carreiras de cavalos”: lazer, esporte e os paradoxos da modernidade no Rio Grande do Sul, séculos XIX e XX
A proposta deste artigo é analisar o fenômeno lúdico das carreiras em cancha reta, corridas de cavalo que acontecem pelo menos desde o século XIX no Sul do Brasil. Procura-se compreender este fenômeno como uma face oculta de uma modernidade simbolizada pelos clubes de corridas de cavalos que se instauraram nas grandes cidades brasileiras a partir da segunda metade do século XIX. Tal análise faz-se a partir de fontes variadas como a literatura, documentos governamentais, periódicos e processos-crime. A partir desta variada documentação, pode-se perceber a perenidade deste fenômeno que se transformou em símbolo cultural da região, sendo atualmente patrimônio histórico do Rio Grande do Sul.
Performances no mundo do livro: entre a história, a memória e a ficção
Neste artigo, objetivamos analisar como ficcionistas, ensaístas e memorialistas elaboram histórias de experiências com a leitura e as bibliotecas no interior de uma cultura do livro no Ocidente e com pontos de contato com a história dos livros, da edição e da leitura, a partir do pressuposto da plasticidade existente entre esses gêneros de escrita. O texto explora, por meio de certas tópicas, representações, metáforas e alegorias recorrentes em escritos centrados na temática de livros, bibliotecas e leitores. A intenção é mostrar o livro como matéria de ficção, exercício de memória e objeto de análise; como a ficção e o ensaísmo podem ser um modo de interrogação da história e de dar forma à memória; e como a memória e a percepção do tempo podem ser mediados pelos livros e pelos atos de leitura.
A atuação da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos (Desterro) e a figuração sociopolítica em torno das eleições 1846-1847
Analisa-se a participação da comunidade africana na eleição catarinense de 1846-1847. Discutem-se as disputas internas entre “pretos” e “crioulos” na Irmandade do Rosário e São Beneditino, os contextos que permearam os conflitos em torno da permanência de barracas e quitandas de africanos no Largo da Matriz, as perseguições contra ajuntamentos de escravos e forros encabeçados pela Sociedade Patriótica (maçonaria), a presença de jesuítas e partidários conservadores na Irmandade e, por fim, a poesia política de Marcelino Antonio Dutra. Deseja-se compreender a figuração sociopolítica em torno da formação do bipartidarismo na Província de Santa Catarina e a agência social dos africanos da Irmandade nesse contexto.
Frederick Law Olmsted: a arquitetura de paisagens e os parques nacionais norte-americanos
O presente estudo se insere no campo da história ambiental, trata da arquitetura de paisagens e do seu precursor, o arquiteto paisagista Frederick Law Olmsted. A análise dos escritos de Olmsted, de figuras importantes para sua formação pessoal e profissional, e a compreensão do contexto no qual ele se destacou têm forte relação com a proteção à natureza. O objetivo deste artigo consiste em compreender o contexto em que se desenvolveu o trabalho de Olmsted e a sua relação com os primeiros parques nacionais norte-americanos. As conclusões da pesquisa destacam: i) a percepção de Olmsted de que se devia buscar uma relação saudável entre humanos e a natureza; ii) e o seu legado para a sociedade norte-americana do século XIX, especialmente no que diz respeito à questão da valorização da natureza selvagem.
“Dispensamos o suplicante in defectu coloris”: em torno da cor nos processos de habilitação sacerdotal no bispado do Rio de Janeiro (1702-1745)
A dispensa do “defeito da cor”, proferida em benefício dos descendentes de escravos e africanos, tornou-se expressão corrente nos processos de habilitação ao clero secular ao longo do século XVIII. No entanto, seu emprego não foi natural e desprovido de sentido específico. A padronização das dispensas implicou a definição de um vocabulário que foi estabelecido a partir da experiência dos agentes eclesiásticos no contexto de uma sociedade escravista perpassada pelos valores de uma cultura política de Antigo Regime. Desse modo, a expressão passou a representar uma visão sobre as classificações sociais com base na cor e possíveis concepções sobre as origens relacionadas à escravidão.
À procura da intimidade: formas de oração em língua vernácula na França dos séculos XIV e XV
Este artigo analisa uma série de textos de oração compostos em língua francesa nos séculos XIV e XV e que ensinaram a um público laico modalidades devocionais consideradas “interiores”, isto é, de inspiração monástica, fundadas na leitura, na meditação e na oração privada. Trata-se de explorar como tais textos redigidos por clérigos e distintos dos livros de horas – que nesse período ainda privilegiavam o latim –veicularam um programa de vida virtuosa para leigos interessados em dedicar-se mais integralmente à oração em seu cotidiano doméstico. Importa interrogar o valor desses ensinamentos num momento de tensões geradas pelo Cisma papal que dividiu a Igreja entre Roma e Avinhão de 1378 a 1417, e igualmente pela reprovação clerical dos excessos devocionais vindos de figuras que então buscavam formas mais íntimas e diretas de diálogo com Deus, com frequência manifestas em visões, êxtases e estigmas, bem como no menosprezo dos sacramentos.
A família dos ‘Inácios’: práticas de nominação e memória da escravidão (litoral do Rio Grande do Sul, séculos XIX e XX)
O artigo analisa as práticas de nominação adotadas por descendentes de cativos no litoral do estado brasileiro do Rio Grande do Sul, observando três gerações de uma família específica entre os séculos XIX e XX. Foram analisados inventários, testamentos, documentação paroquial e produzidas entrevistas, a fim de reconstituir trajetórias familiares e identificar práticas de nominação. Decompondo-se as denominações em prenomes, sobrenomes e tecnonímicos, busca-se ir além dos vínculos verticais que os ligavam às famílias senhoriais, enfocando-se também as solidariedades horizontais. Entende-se que essas pessoas imprimiram, em suas formas de nomear, a memória de seus familiares, recriando vínculos com uma ancestralidade cativa, o que pode representar a recriação de sistemas africanos de linhagens.
O Museo Carlos Gardel, em Tacuarembó, e o Museo Casa Carlos Gardel, em Buenos Aires: nacionalismo e disputas pelo patrimônio cultural
No presente artigo, analiso as ativações patrimoniais realizadas no Uruguai e na Argentina para a criação, exposição e divulgação dos museus Carlos Gardel, em Tacuarembó, e Casa Carlos Gardel, em Buenos Aires, na última década do século XX e primeira década do XXI. Enfoco as disputas relacionadas à identidade nacional de Carlos Gardel. Para tanto, utilizo, como fontes, documentação oficial relacionada à criação de ambos os museus, publicações relacionadas ao tema e a composição das exposições dos museus, focalizando o que foi escolhido para ser apresentado ao público e qual versão sobre a identidade nacional de Gardel e do tango está presente nessas escolhas.
Resenhas
Um país e seus fantasmas: a tradição autoritária no Brasil
Resenha do livro: SCHWARCZ, Lilia Katri Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019
Uma Epopeia Goiana
Resenha do livro: SILVA, Sandro Dutra. No Oeste, a terra e o céu – a expansão da fronteira agrícola no Brasil Central. Rio de Janeiro: Mauad X, 2017.
Entrevistas
Entrevista com Ronald Grele: considerações sobre história oral
Entrevista realizada por Valéria Barbosa de Magalhães em 3 de fevereiro de 2019, em Nova York, no âmbito do projeto de pesquisa Nordestinos em São Paulo e história oral: abordagem histórico-crítica, financiado pela Fapesp e coordenado pela entrevistadora. Transcrição: Aline dos Campos Reis (Bolsista TT/Fapesp). Conferência e tradução: Valéria B. Magalhães.
