nº 34 / V. 18
Janeiro - Abril 2017
Artigos
Três pretos tristes: André Rebouças, Cruz e Sousa e Lima Barreto
A principal sugestão deste ensaio é a de que a questão da abertura, da incompletude do Brasil foi construída no âmbito dos debates sobre a crise estrutural do império brasileiro, como crítica assistemática, porém pertinaz, à ordem burguesa que se impunha. Naquele contexto, foram portadores dessa crítica André Rebouças, Cruz e Sousa e Lima Barreto, cuja inscrição marginal em seus respectivos contextos de atuação lhes conferiu ângulos privilegiados para a figuração de outros Brasis possíveis. Contudo, o desfecho trágico de suas vidas — o suicídio, a tuberculose famélica e o alcoolismo — ocultou a radicalidade presente em sua obra.
Piquetes como repertório: organização operária e redes sociais nas greves de 1957 e 1980
Este artigo analisa o papel dos piquetes em duas das mais importantes greves da história brasileira, a "greve dos 400 mil", que envolveu diversas categorias industriais em São Paulo e cidades vizinhas em 1957, e a "greve dos 41 dias", em 1980, organizada pelos metalúrgicos do ABC Paulista, na região metropolitana da cidade de São Paulo. Embora separadas no tempo em quase 25 anos, essas duas grandes paralisações se tornaram exemplos paradigmáticos das formas de ação sindical, tanto do sindicalismo sustentado pelo bloco formado pelas forças "nacional-reformistas" e comunistas, hegemônicas no período anterior ao golpe civil-militar de 1964, quanto do "novo sindicalismo" que emergiu a partir do final dos anos 1970. A análise mais detida das greves mostra elementos destacados de aproximação e semelhanças entre os dois movimentos. A análise mais apurada da ação dos piquetes indica um repertório organizativo mais permanente e resistente do que indicado pela bibliografia especializada e pelo discurso das lideranças políticas e sindicais.
Sobre diversidade e unidade: dinâmicas locais e extralocais nas concepções do humanismo erasmiano, da Institutio principis christiani (1516) ao Ecclesiastae sive de ratione concionandi (1535)
Este artigo pretende analisar como as complexas relações entre fatores de ordem local e extralocal aparecem no arcabouço do humanismo erasmiano. Propondo uma alternativa às leituras de Erasmo ora como cosmopolita, ora como um localista com atitudes ambíguas frente ao seu torrão natal, este texto intenta mostrar como o humanismo erasmiano foi o locus de uma concepção de sociedade que articulava esses elementos locais e extralocais num arranjo complexo, mas fundamentalmente retórico, a partir da ideia de respublica christiana, uma estrutura teológico-política de cujo caráter evanescente as últimas obras do humanista se mostram cada vez mais conscientes.
Esportes nos confins da civilização: Mato Grosso, 1920-1930
Analisando livros de viagem e de memorialistas, alguns documentos oficiais e jornais publicados no Mato Grosso, disponíveis nos acervos do Arquivo do Estado do Mato Grosso, da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro e do Arquivo do Exército, este artigo descreve e interpreta a história dos esportes no Mato Grosso na década de 1920, período que corresponde a um considerável processo de expansão social e geográfica dessas práticas na região. O desenvolvimento histórico do esporte no Mato Grosso, articulado a um nascente mercado de entretenimento de massas, esteve relacionado a transformações mais amplas e estruturais que afetaram a região no período, tais como mudanças nas relações de gênero, intensificação do associativismo civil e crescimento econômico e demográfico.
A Ilustração (Paris, 1884-1892) e a Revista de Portugal (Porto, 1889-1892): diálogos entre projetos editoriais e possibilidades técnicas
O objetivo deste artigo é investigar o contorno original do projeto que resultou na organização da Revista de Portugal, levado a cabo por Eça de Queirós. O periódico foi lançado em 1889 e desempenhou papel de relevo na discussão de questões estéticas e políticas do seu tempo. Entretanto, menos conhecida é a conjuntura que levou o escritor a decidir-se pela fundação do impresso, as idas e vindas da concepção editorial do mesmo, as intenções que acabaram por não se concretizar e o fato de a revista A Ilustração, de Mariano Pina, ter se constituído no ponto de partida do empreendimento. A análise deste caso concreto é relevante, pois remete para as múltiplas possibilidades oferecidas pelo mercado de edição de impressos periódicos, então já efetivamente internacionalizado, além de evidenciar o papel desempenhado pelas possibilidades técnicas na definição da natureza de um impresso periódico bem como o duplo caráter do mesmo, a um só tempo mercadoria e instrumento de intervenção no espaço público.
Concílio de Aquileia de 381: propagação da fé nicena e da unidade imperial pela pena de Ambrósio, bispo de Milão
Neste artigo, detemos nossas análises nos argumentos elaborados por Ambrósio, bispo de Milão, para fortalecer a fé nicena imperial imediatamente após o Concílio de Aquileia, do ano de 381. Sugerimos que tais argumentos também sustentavam a unidade em torno da figura imperial. Para responder aos nossos questionamentos, examinamos três cartas redigidas por Ambrósio: Epistolae extra collectionem 4 (10), 5 (11) e 6 (12). Observamos que, embora todas essas cartas tenham sido encaminhadas aos três imperadores romanos — Graciano, Valentiniano II e Teodósio — o bispo dirigia-se especialmente a Graciano. Afinal, este era o imperador a quem o milanês se vinculava diretamente. Ambrósio almejava, nos territórios romano-ocidentais, uma sociedade cristã-nicena conduzida especialmente por Graciano, augusto que tinha sua sede em Milão. Uma proximidade que alimentou uma interessante aliança entre o poder temporal, encarnado em Graciano, e o poder espiritual administrado por Ambrósio..
De verdugos a matones y patotas. Representaciones de la represión ilegal en HUM® y Pasquim durante la distensión de las dictaduras militares de Argentina y Brasil
O artigo propõe um exercício de comparação das representações humorísticas do terrorismo de Estado publicadas pelo tabloide brasileiro O Pasquim (1969-1991) e pela revista argentina HUM® (1978-1999) durante a distensão das ditaduras militares. Neste contexto, muitos humoristas paulatinamente abandonaram as metáforas e as operações de camuflagem, às quais haviam recorrido durante o período de maior repressão, e começaram a ser mais literais e diretos na hora de representar a violência política clandestina perpetrada pelo Estado, buscando colocar em palavras e imagens as dimensões do massacre e do terror. A análise dessas mutações, do escopo e dos limites no processo de “nomear o inominável” acreditamos que permitirá sondar os umbrais da tolerância e da sensibilidade social com respeito ao mais sinistro e traumático aspecto das ditaduras: a violência estatal ilegal e a violação dos direitos humanos.
O eclipse do Principal: apontamentos sobre as mudanças de hierarquias entre os indígenas do Grão-Pará e os impactos no controle da sua mão de obra (décadas de 1820 e 1830)
Este artigo parte do quase desaparecimento de citações à figura dos Principais dos “indígenas avilados” na documentação sobre o Grão-Pará, nas décadas de 1820 e 1830. O esvaziamento, a partir da Carta Régia de 1798, de funções centrais dos Principais na política de recrutamento de mão de obra e dos descimentos, somada à acelerada integração das antigas aldeias às vilas e povoados, parece ter resultado na primeira metade do XIX em uma organização social distinta daquela marcada pelo Diretório. Por um lado, esses aspectos devem ser considerados para refletir sobre as identidades indígenas que, apesar de um cenário adverso, mantêm-se bastante marcadas na sociedade desta província. Também como resultante das mudanças na organização do trabalho indígena, é patente o fortalecimento dos oficiais de Milícias de Ligeiros como atores políticos. Como se pretende demonstrar, esses indivíduos passam a ter uma ação destacada na província, sempre marcada pela oposição aos grupos identificados como liberais. Por fim, pretende-se ainda fazer alguns apontamentos sobre o papel das câmaras em tentativas de resguardar os indígenas de abusos na utilização da sua mão de obra. De forma preliminar, interroga-se se nestes espaços ainda se manteve preservada a voz das lideranças indígenas.
Resenhas
A formação da economia cafeeira do vale do Paraíba
Resenha do livro: FRAGOSO, João. Barões do café e sistema agrário escravista: Paraíba do Sul, Rio de Janeiro (1830-1888). Rio de Janeiro: 7Letras, 2013.
Uma história de Benguela na economia do Atlântico Sul
Resenha do livro: CANDIDO, Mariana P. An African Slaving Port and the Atlantic World. Benguela and Its Hinterland (2013). Nova York: Cambridge University Press, 2015.
Guerra, mobilização e escravidão no Brasil e nos Estados Unidos
Resenha do livro: IZECKSOHN, Vitor. Slavery and War in the Americas: Race, Citizenship, and State-Building in the United States and Brazil. Charlottesville: University of Virginia Press, 2014.
Às margens da açucaristocracia: segredos internos da Recife da década de 1970 em um conto de Alexandre Furtado
Resenha do livro: FURTADO, Alexandre. Os mortos não comem açúcar. Rio de Janeiro: Confraria do Vento, 2015. 151p.
