nº 33 / V. 17
Julho - Dezembro 2016
Artigos
Os aniversários da abolição da escravatura e a imprensa ilustrada do Rio de Janeiro (1890-1902)
A imprensa ilustrada do Rio de Janeiro celebrou em suas páginas os aniversários da Lei Áurea, que libertou os escravos em 1888. As celebrações da data ocorreram, sobretudo, nos anos 1890, os primeiros do novo regime político advindo com a proclamação da república. Analisar como os aniversários de um evento político e social importante da história do Império do Brasil foram abordados no período republicano é o objetivo do artigo. Para esta análise serão averiguados dois periódicos-Revista Illustrada e Don Quixote-que trataram dos aniversários da abolição com opiniões distintas e que possibilitam compreender o cenário político do começo do Brasil Republicano.
Diálogos catequéticos coloniais: cena textual versus performance
Objetiva-se demonstrar a aplicação de preceitos retóricos quando da composição de diálogos catequéticos no Estado do Brasil, correlacionando-se a enunciação jesuítica sobre a participação de índios na fatura das traduções dos catecismos para as línguas peregrinas do Novo Mundo-o que indiciaria a presença de uma fala índia ainda rumorejante nesses diálogos-, e o estilo pedestre próprio do gênero "diálogo", com vistas a patentear como essa correlação produz o efeito da "naturalidade da fala selvagem" e, também, o da falta de aplicação de artifício compositivo por parte dos padres da Companhia de Jesus. Discute-se, outrossim, como a "cena" em que dialogam catequista e catecúmeno fixa um modelo para posterior replicação em situações de prática catequética, "cena" essa que, no entanto, era infletida de vários modos pelo hiato entre modelo textual e performance. Por fim, discute-se como a escritura de diálogos, ao se apropriar da fala índia, só o faz para nela inscrever as matérias sacras, as verdades da fé católica, que caberá ao índio, por repetição e interiorização do que repetidamente enuncia, inscrever em si mesmo como duplo do catecúmeno que, nos diálogos, é um seu reflexo perfeito, reflexo que, no entanto, se embacia quando da prática catequética pela impossibilidade de o índio "atuar" como o modelo mimético que o representa à sua revelia.
O historiador e o trato com as fontes pictóricas — a alternativa do método documentário
Neste artigo é apresentado e debatido o Método Documentário de Análise de Imagem desenvolvido por Ralf Bohnsack, pesquisador da Freie Universität Berlin, e algumas de suas possibilidades para os estudos de História e demais áreas das Ciências Humanas. A busca pelo sentido documentário da imagem, para além do sentido imanente, caracteriza o método que aponta para a análise da visão de mundo e do habitus do grupo produtor da fonte. Desta forma, passa-se da simples interpretação da imagem para o estudo aprofundado das características de tal grupo, suas ideias, ações, seus conceitos e preconceitos. Na tentativa de aproximar o método das ciências históricas e políticas, apresentamos uma análise de uma charge como exemplo. Tal forma de representação foi escolhida pelo fato de poucas imagens serem tão marcadamente políticas e ao mesmo tempo representativas de um momento e um grupo social quanto as charges. A análise da imagem pretende, assim, demonstrar a abrangência que uma fonte dessa natureza pode apresentar, bem como a efetividade da utilização do método documentário na busca por sua ampla compreensão
O que narram os historiadores? Para uma genealogia da questão narrativa em história
O argumento deste artigo é o de que a discussão em torno do caráter e da função da narrativa histórica vinha se desenvolvendo numa clave específica pela filosofia analítica anglo-saxônica, cuja linha de pensamento e argumentação fora nitidamente abandonada em poucos anos com a irrupção do paradigma linguístico pós-estruturalista, e, paralelamente das teses do crítico literário norte-americano Hayden White, no início dos anos 1970. A ruptura nessas linhas de reflexão acabou obliterando o potencial da reflexão que vinha se desenvolvendo antes que todas suas premissas fossem exauridas. Na primeira parte deste texto relata-se um debate recente entre dois expoentes da filosofia da história. Em seguida, uma breve recensão bibliográfica acerca do tema da narrativa histórica na perspectiva da filosofia analítica. Palavras-chave: narrativa histórica; narrativismo; filosofia analítica da história; filosofia analítica da linguagem; teoria da história.
Territorialidades fluidas: corsários franceses e tráfico negreiro no Rio da Prata (1796-1799). Tensões locais-tensões globais
Entre 1798 e 1799 dois corsários franceses, o capitão Carbonell e o capitão Le Bozec utilizaram o porto de Montevidéu como base para conduzir suas presas. O modus operandi destes, comandantes da corveta Le Grand Bonaparte e da fragata La Republicaine, respectivamente, foi o de espreitar suas presas perto do Rio de Janeiro, águas marítimas pelas quais navegavam inimigos da França: portugueses e ingleses. A presa era conduzida até o porto de Montevidéu para vender seu produto: os carregamentos e navios. As ações dos capitães Carbonell e Le Bozec desnudam um conjunto de relações do espaço platino. As ações dos dois corsários evidenciam algumas das tensões ao interior da classe comerciante, sobretudo, o conflito entre os comerciantes vinculados a Cádiz e os vinculados ao Brasil.
Em nome do Pai: o Francisco de Assis de Leonardo Boff
O presente texto analisa a imagem de Francisco de Assis construída por Leonardo Boff. Discute-se aqui como o ainda frade franciscano Boff respondeu às sanções disciplinares a ele impostas pela Santa Sé, reação expressa no livro Francisco de Assis: a saudade do Paraíso (1985). Nessa obra, um exercício memorial inspirado em fontes franciscanas primitivas, Boff vai além da mera celebração da legenda de Francisco de Assis, apresentando o santo medieval como ícone da Teologia da Libertação, crente paradigmático para nosso tempo e patrono das causas populares. Assim, interpretando Francisco de Assis por intermédio dos ideais cristãos liberacionistas, Boff contestou seus adversários, ratificando sua teologia militante. Por fim, ele proclamou projeto político de oposição à ordem estabelecida no Brasil e na Igreja Católica.
Ofícios e estratégias de acumulação: o caso do despenseiro da Inquisição de Lisboa Antonio Gonçalves Prego (1650-1720)
Os palácios inquisitoriais, sedes dos tribunais do Santo Ofício, não eram apenas elementos arquitetônicos utilitários, mas assumiram uma relevância simbólica no seio da sociedade portuguesa do Antigo Regime. Isso ainda era mais forte em Lisboa, onde além de tribunal distrital, os Estaus também eram a sede do Conselho Geral e a residência do inquisidor geral. Neste artigo, pretendemos mostrar a importância do tribunal inquisitorial enquanto locus de afirmação social, a partir do exemplo de um daqueles que eram chamados de oficiais leigos da Inquisição (alcaide, meirinho, guardas etc.) e que, via de regra, assim como o inquisidor geral, residiam nos Estaus. No entanto, também mostraremos que essa importância ia mais além da simples certificação da pureza de sangue e que ela se entende apenas no âmbito de estratégias sociais mais amplas do indivíduo e de sua família. Palavras-chave: Inquisição portuguesa; Estaus; mobilidade social; venalidade de ofícios.
Presença da “colônia portuguesa” na paisagem cultural e midiática do Rio de Janeiro: o Grêmio Literário Português e o Retiro Literário Português (1855-1885)
A história do associativismo cultural português no Rio de Janeiro do Segundo Reinado é marcada pela fundação de agremiações famosas e ainda vivas tais como o Real Gabinete Português de Leitura ou o Liceu Literário Português. No entanto, outras sociedades desempanharam um papel relevante no campo cultural carioca. Ambos, o Grêmio Literário Português, fundado em 1855, e o Retiro Literário Português, fundado em 1859, iniciaram uma política editorial inédita a fim de promover suas atividades, difundir a cultura portuguesa e trabalhar em prol de um estreitamento dos intercâmbios culturais luso-brasileiros. Através do estudo das publicações destas duas sociedades, pretende-se oferecer reflexões inéditas sobre a história conturbada do associativismo cultural português no Rio de Janeiro, discutindo sua articulação com o cenário cultural da capital imperial e avaliando seu papel e importância na colônia portuguesa, tendo em conta a heterogeneidade social crescente no seu seio e a concorrência entre as numerosas sociedades lusitanas.
Da produção ao mercado: "delitos económicos", penas e controlo municipal na Idade Média, segundo o testemunho dos Costumes e Foros portugueses
Este texto tem como objetivo principal fazer uma reflexão sobre conflitos e os “delitos económicos”, bem como os mecanismos de controlo penal e social ao dispor dos concelhos medievais portugueses (Alfaiates, Castelo Bom, Castelo Melhor, Castelo Rodrigo, Guarda, Santarém, Torres Novas, Évora e Beja) para regulamentar os setores económicos, defendendo as suas populações e garantindo-lhes o abastecimento de produtos e de gêneros alimentares indispensáveis no dia a dia, a partir dos seus direitos consuetudinários, os seus costumes e foros (séculos XIII). Partindo destes pressupostos, é possível também conhecer algumas profissões (mesteres e agentes comerciais), locais de comércio, entre outros detalhes relacionados com desenvolvimento das atividades económicas urbanas.
“Não tenhas medo”: a formação de uma cultura visionária em Portugal e as suas práticas e representações no Brasil (1917-1940)
A política cultural laicista implementada em Portugal após a proclamação da república, em 5 de outubro de 1910, contribuiu para a formação de ações anticlericais que tinham o objetivo de encerrar as atividades da Igreja Católica no país. Como reação, os membros do clero se empenharam nos projetos de recatolização proposta pela Cúria romana, como ações internacionais nas primeiras décadas do século XX. Neste texto, com uma abordagem voltada para a História Cultural das Religiões, observamos como as aparições de Nossa Senhora de Fátima, a partir de maio de 1917, foram utilizadas para a reafirmação do discurso eclesiástico e a construção de uma cultura visionária no mundo luso-brasileiro. Ainda em nossa narrativa, analisamos a internacionalização do culto, sobretudo, as suas práticas e representações em terras brasileiras.
El Partido Peronista argentino: diseños organizativos y prácticas políticas (1947-1955)
O peronismo como força política ou identidade popular tem sido amplamente pesquisado desde as suas origens em 1945 até nossos dias. Menos interesse tem concitado o estudo da organização partidária que os peronistas construíram. Este artigo analisa a configuração do Partido Peronista entre 1947 e 1955, os dilemas e conflitos que os organizadores partidários enfrentaram e as lutas pelo poder no interior do partido entre os diversos grupos dirigentes, que resultaram na constituição de dois modelos de partido diferentes.
Clio e Melpomene: a correspondência entre Johan Huizinga e André Jolles sobre a escrita da História
Este artigo analisa a relação entre História e Literatura a partir da correspondência entre o historiador da cultura Johan Huizinga e o historiador da arte e da literatura André Jolles, em 1925, intitulada Clio e Melpomene. Amigos desde o final da década de 1890, Huizinga e Jolles compartilharam ao longo de suas carreiras um conjunto amplo de questões em torno do problema da forma, colocando-a como conceito central da investigação sobre o tema da escrita da História. Nessa correspondência, a definição de qual seriam os limites e aproximações entre Clio e Melpomene ajuda a lançar luz tanto sobre a trajetória intelectual desses autores quanto sobre os debates persistentes acerca da elaboração do texto historiográfico.
Resenhas
As (des)classificações do tempo: linguagens teóricas, historiografia e normatividade
Resenha do livro: KLEIN, Kerwin Lee. From history to theory. Berkeley: University of California Press, 2011.
Tempos passados em James Stuart Archive: recontando histórias, entrelaçando narrativas
Resenha do livro: WEBB, Colin de Berri; WRIGHT, John Britten. The James Stuart Archive of recorded oral evidence relating to the history of the zulu and neighbouring peoples. Pietermaritzburg: University of Natal Press, Durban: Killie Campbell Africana Library, v. 6. 2014.
As “mina” de Minas: acomodações e resistências de mulheres nas Minas Gerais
Resenha do livro: MAIA, Cláudia; Puga, Vera Lúcia. (Org.). História das mulheres e do gênero em Minas Gerais. Florianópolis: Editora das Mulheres, 2015. p. 552.
Escrevendo a história da alimentação: resenha de uma obra de referência
Resenha do livro: PILCHER, Jeffrey. (Ed.). The Oxford Handbook of Food History. Nova York: Oxford University Press, 2012. p. 508.
“Deus está nos detalhes”: percorrendo imagens de medos, reverências e terror
Resenha do livro: GINZBURG, Carlo. Medo, reverência e terror. Quatro ensaios sobre iconografia política. São Paulo: Companhia das Letras, 2014.
Pensar (com) a imagem: reflexões teóricas para uma práxis historiográfica
Resenha do livro: ALLOA, Emmanuel. (Org.). Pensar a imagem. Tradução coordenada por Carla Rodrigues. Belo Horizonte: Autêntica, 2015.
Arqueologia em Movimento: uma análise dos métodos para a investigação de movimentos de pessoas, objetos e ideias no passado
Resenha do livro: BEAUDRY, Mary C; PARNO, Travis G. Archaeologies of Mobility and Movement. Nova Iorque: Springer, 2013.
Os três pilares de sustentação dos regimes pós-1952 no Egito
Resenha do livro: KANDIL, Hazem. Soldiers, Spies, and Statesmen: Egypt's Road to Revolt. Londres: Verso. 2012.
¿Hacia una historia global no eurocéntrica?
Resenha do livro: OSTERHAMMEL, Jürgen. The Transformation of the World. A Global History of the Nineteenth Century. Patrick Camiller (Trad.). Princeton/Oxford: Princeton University Press, 2014. p. 1165.
