Marcello Moreira
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia - UESB
Publicações
Uma história das práticas letradas: homenagem a Andrea Daher
Em 4 de junho de 2019, Andrea Daher recebeu o título de professora emérita do Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Alguns meses antes da solenidade, em agosto de 2018, foi feita uma homenagem ao seu trabalho, intitulada “Jornada de Estudos sobre oralidade e escrita. Homenagem a Andrea Daher”, no Salão Nobre do mesmo Instituto, contando com a participação de colegas da História, das Ciências Sociais e das Letras. Três dessas homenagens são hoje publicadas aqui, num único dossiê: a de Roger Chartier (I), a de Hélio de Seixas Guimarães (II); e a de Marcello Moreira (III). Foram mantidas as características orais desses discursos, publicados tais como foram apresentados, a que foram acrescidas notas bibliográficas. Por fim, encontra-se ainda, neste dossiê, o discurso proferido por Andrea Daher na cerimônia de sua emerência (IV), tornando coerentes e plenas de sentido as homenagens prestadas que o precedem.
Diálogos catequéticos coloniais: cena textual versus performance
Objetiva-se demonstrar a aplicação de preceitos retóricos quando da composição de diálogos catequéticos no Estado do Brasil, correlacionando-se a enunciação jesuítica sobre a participação de índios na fatura das traduções dos catecismos para as línguas peregrinas do Novo Mundo-o que indiciaria a presença de uma fala índia ainda rumorejante nesses diálogos-, e o estilo pedestre próprio do gênero "diálogo", com vistas a patentear como essa correlação produz o efeito da "naturalidade da fala selvagem" e, também, o da falta de aplicação de artifício compositivo por parte dos padres da Companhia de Jesus. Discute-se, outrossim, como a "cena" em que dialogam catequista e catecúmeno fixa um modelo para posterior replicação em situações de prática catequética, "cena" essa que, no entanto, era infletida de vários modos pelo hiato entre modelo textual e performance. Por fim, discute-se como a escritura de diálogos, ao se apropriar da fala índia, só o faz para nela inscrever as matérias sacras, as verdades da fé católica, que caberá ao índio, por repetição e interiorização do que repetidamente enuncia, inscrever em si mesmo como duplo do catecúmeno que, nos diálogos, é um seu reflexo perfeito, reflexo que, no entanto, se embacia quando da prática catequética pela impossibilidade de o índio "atuar" como o modelo mimético que o representa à sua revelia.
